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Massa muscular, composição corporal e nutrientes específicos em oncologia

Atualizado: 6 de dez. de 2022





Por: Pedro Dal Bello e Thais Miola

Pedro Dal Bello: Médico Nutrólogo e Oncologista Clínico;

Thais Miola: Nutricionista Oncológica


Pacientes com câncer que evoluem com perda de massa muscular durante o tratamento, vão apresentar piores desfechos em todos os cenários: pior sobrevida global, pior sobrevida livre de progressão, baixa tolerância ao tratamento, piores resultados cirúrgicos, pior qualidade de vida e maiores custos aos Sistemas de Saúde (1-2).


A perda de massa muscular no paciente oncológico é multifatorial e pode estar relacionada com inflamação crônica, alterações hormonais, inatividade física e insuficiência energética e proteica. As fibras musculares são substituídas por tecido gorduroso (mioesteatose) ou tecido fibroso, reduzindo ainda mais a força e a funcionalidade dos pacientes (3).


Em uma fase inicial da doença oncológica, muitos pacientes podem perder massa muscular (diagnosticado por métodos de composição corporal), sem que tenham perdido quantidade expressiva de peso corporal ou força muscular (4). Tais pacientes frequentemente não são diagnosticados com baixa massa muscular na prática clínica. Não fazer diagnóstico implica em não fazer intervenção nutricional e isso vai impactar em piores desfechos clínicos e cirúrgicos.


Pacientes com sobrepeso e com obesidade também são frequentemente negligenciados quanto à perda de peso e de massa muscular5. Diversos estudos científicos já comprovaram que pacientes com excesso de adiposidade e baixa massa muscular (obesidade sarcopênica) apresentam piores desfechos quando comparados com aqueles com massa muscular normal (5-7).


É com base nesses dados que ressaltamos a importância de se identificar baixa massa muscular e baixa qualidade muscular de forma precoce, sistematizada e contínua.


Quanto ao tratamento para recuperação da massa muscular, a terapia deve ser multimodal, contemplando nutrição especializada, exercício físico, tratamento farmacológico e psicológico. Do ponto de vista nutricional, é necessário a oferta adequada de energia e proteína para aumentar a síntese proteica, além de nutrientes específicos8.

A oferta adequada de proteína é a base do ganho de massa muscular. Um dos aminoácidos que se destacam nesta função é a leucina, aminoácido essencial de cadeia ramificada. A leucina aumenta a ativação e a expressão do alvo da rapamicina (mTOR) no tecido muscular esquelético, etapa fundamental no processo de síntese proteica, mesmo em situações de desnutrição, imobilização e presença de neoplasia (2,9-12).


A suplementação de ômega-3 também é indicada para pacientes oncológicos, pois atua na redução da inflamação sistêmica, aumento da ingestão alimentar, melhora do peso corporal e da massa muscular e, consequentemente, melhora do desempenho (1,2,13,14).


A melhora da composição corporal, com ganho de massa muscular, através do ômega-3 ocorre por diversos mecanismos. Este nutriente é capaz de reduzir a proteólise através da diminuição da expressão de subunidades de proteassoma, minimizando então, a atividade do sistema ubiquitina-proteassoma, importante sistema de proteólise observado em pacientes com câncer. Além disso, o ômega-3 tem função anti-inflamatória, auxiliando na redução de marcadores inflamatórios, como interleucina 1 e 6 e Fator de Necrose Tumoral-alfa (15-18).


Outra ação, mas de forma indireta do ômega-3, é o auxílio na ativação da via mTOR. Esta via de síntese proteica requer sinalização da insulina e o ômega-3 parece contribuir para a redução da resistência à insulina, condição clínica encontrada em pacientes caquéticos, favorecendo sua ativação (15,19).


A recomendação de ingestão total diária de ômega-3 deve ser de 2,0-2,2g/dia de óleo de peixe/EPA e 1,5g/dia de DHA (8,18).


Outro nutriente de importante observação em oncologia é a vitamina D, pois sua deficiência ocorre com frequência nestes pacientes e acarreta consequências negativas para a massa muscular, principalmente redução da função muscular. A função muscular alterada pode aumentar a fadiga associada ao câncer e seus tratamentos, além do risco de quedas e fraturas, aumentando as taxas de morbimortalidade. A oferta adequada de vitamina D é uma das intervenções nutricionais para o tratamento da baixa massa muscular (19-23).


A intervenção nutricional precoce e especializada é essencial para a recuperação da massa muscular, melhorando os desfechos clínicos dos pacientes com câncer e, consequentemente, melhora a qualidade de vida.


Referências Bibliográficas


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2 - BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Câncer. BRASPEN J 2019; 34 (Supl 1):2-32. (a)


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9 - Amaral RB, Martins CEC, Lancha Junior AH, Painelli VS. Can leucine supplementation attenuate muscle atrophy? A literature review. Rev. bras. cineantropom. desempenho hum. 2015;17(4):496-506.

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21- BRASPEN. Diretriz Braspen de Terapia Nutricional no Envelhecimento. BRASPEN J 2019; 34 (Supl 3):2-58. (b)

22 - Cruz-Jentoft AJ, Sayer AA. Sarcopenia. Lancet. 2019;393(10191):2636-2646.

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